Depressão pós parto

Depressão pós parto

Há vários transtornos psiquiátricos que são associados ao período pós-parto (chamado na medicina de período puerperal).

No puerpério há diversas alterações nos hormônios sexuais da mulher, nos níveis de um hormônio importante chamado ocitocina e no eixo de regulação de uma área cerebral chamada eixo hipotálamo-hipófise.

Não é necessário entender as particularidades dessas alterações, apenas que elas afetam os neurotransmissores cerebrais que são importantes na origem dos sintomas depressivos. A mulher, nesse período, apresenta importantes alterações nos níveis e ação da serotonina, se tornando um momento com alto risco de depressão. Com a serotonina baixa, a janela da depressão está aberta.

Além disso, o puerpério é marcado por importantes mudanças psicossociais, como a necessidade de uma reorganização total da vida da mulher e a adaptação à nova função materna. Há um aumento de responsabilidade, cobrança e a necessidade de cuidar de um ser indefeso e, muitas vezes, isso acontece sem qualquer experiência prévia. Além disso, a mulher sofre privação de sono, isolamento social e cobranças de amigos e familiares para ser sempre uma mãe perfeita.

Todos esses fatores em conjunto aumentam o risco de depressão neste período da vida da mulher.

O risco de depressão pós-parto é de 15% após cada gestação e irá depender tanto das predisposições hormonais quanto psicológicas.

Há três transtornos mentais comuns no puerpério: disforia puerperal, depressão pós-parto e psicose puerperal.

A disforia puerperal ou blues puerperal acomete quase 50% das mulheres nos primeiros dias após o parto. Elas observam que, alguns dias após o parto, apresentam muita sensibilidade à rejeição e choram com facilidade, embora esse choro não tenha relação com sentimento de tristeza contínua. Os sintomas atingem o pico no quarto ou quinto dia após o parto e remitem de forma espontânea após duas semanas. Ao contrário da depressão pós-parto, os sintomas vão sumindo espontaneamente. Além dos sintomas acima, há irritabilidade e comportamento hostil com familiares. Esses quadros não necessitam de tratamento com medicamentos, mas de suporte emocional adequado e compreensão de todos os envolvidos nos cuidados com o bebê.
A depressão pós-parto é um quadro clínico mais grave que o blues puerperal. Geralmente, o quadro se inicia entre duas e três semanas após o parto, ocorrendo humor deprimido (tristeza contínua), perda de prazer e interesse nas atividades, perda de apetite, sensação de fadiga, lentidão ou agitação, sentimento de inutilidade ou de culpa, dificuldades de memória e concentração e até mesmo pensamentos de morte ou suicídio.

Frequentemente as mulheres também apresentam sintomas ansiosos ou de transtorno obsessivo compulsivo. São casos em que há, além da necessidade de tratamento psicológico, o uso de medicamentos. Os fatores que aumentam o risco de depressão pós-parto são: histórico de depressão antes da gravidez, eventos de vida estressantes, pouco suporte social, problemas financeiros, história de relacionamento conjugal ruim, baixa autoestima e surgimento, logo no início da gestação, de sintomas de blues puerperal. Por outro lado, mulheres otimistas, com boa autoestima, relação conjugal estável, bom suporte social e adequada preparação psicológica apresentam menor risco de apresentar a doença.

A depressão pós-parto é um quadro sério, porque envolve importantes repercussões na relação da mãe com o bebê, na qualidade de vida e na estrutura familiar. Mães com depressão pós-parto têm maior risco de suspender a amamentação, interagem menos com suas crianças e tendem a ter mais sentimentos negativos que positivos em relação ao recém nascido.
Filhos de mães que tiveram depressão pós-parto tendem a ter menor segurança afetiva, são mais distraídos e têm um risco maior de atraso no desenvolvimento cognitivo.

Por último, temos a psicose puerperal, um quadro clínico extremamente grave que pode acometer a mulher após o parto. Não é tão comum, acometendo entre 0,1 a 0,2% das grávidas, mas os sintomas são de início rápido e se instalam já nos primeiros dias após o nascimento.

Inicialmente, a mulher fica eufórica, irritada, falando muito, agitada e insone. Posteriormente, apresenta delírios (ideias falsas sobre a realidade), alucinações e comportamento desorganizado, podendo, inclusive, chegar a ter confusão mental.

O desfecho mais grave desse quadro é o risco de a mãe atentar contra a vida da criança, uma vez que, em alguns casos, ela pode desenvolver pensamentos distorcidos – ideias de que a criança tem problemas graves, poderes especiais ou está possuída são comuns. Pode ainda sentir intensa rejeição para com a criança.
Mães com histórico de transtornos psicóticos ou transtorno bipolar têm maior risco de desenvolver o quadro. Devido à gravidade, o tratamento requer internação hospitalar e separação de mãe e filho até a melhora completa dos sintomas.

Fonte: Livro Depressão Doença ou Problema Espiritual, Ismael Sobrinho